JORNAL: Correio Braziliense
DATA: 19 de dezembro de 2006
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MANCHETE: Jornalista lança o livro `Memórias de uma família negra brasileira`
REPÓRTER: Redação
Jornalista lança o livro `Memórias de uma família negra brasileira`
A história de colonização do Brasil, o processo de escravidão e a segregação racial ainda existente nos dias de hoje afetam a auto-estima do negro brasileiro. O matemático, jornalista e formando em Direito Walter Brito, 52 anos, sabe que é exceção. Negro e nascido numa família pobre, no interior de Goiás, conseguiu superar o preconceito e outros desafios impostos pela vida. No livro recém-lançado Memórias de uma família negra brasileira, ele parte da história pessoal para defender a educação como a principal saída para vencer a discrepância determinada pela cor da pele. O livro já foi lançado em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Nesta sexta-feira, mais um lançamento está marcado, em Formosa (GO), a pouco mais de 70 km da capital federal. A noite de autógrafos começa às 20h, no Formosa Tênis Clube. A entrada é aberta a toda a comunidade.
Com 18 anos de militância negra, Walter aprendeu com a mãe, a porteira e merendeira Deijanira Carvalho de Brito, que o mundo trata melhor quem estuda. Ele e os sete irmãos conseguiram obter um diploma universitário. “Tivemos oportunidade de estudo. Somos exceção à regra. A comunidade negra sempre esteve atrás e é por meio da educação que vamos conseguir equiparar isso”, comenta o jornalista, que já foi diretor da Fundação Cultural Palmares, hoje ligada ao Ministério da Cultura.
O Estatuto da Igualdade Racial, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), uma ferramenta que poderá dar mais oportunidade de estudo aos negros, tramita no Congresso Nacional desde 1998. Para Walter, a demora na aprovação do projeto é uma atitude racista. “Nesse país, tudo é contra o negro. A elite branca está no poder e não conhece a discussão racial. Tem que ter muita força para superar isso”, diz.
Na opinião de Walter, a mídia precisa mudar a visão que tem da negritude. Ele afirma que as novelas ainda encaram o negro de maneira estereotipada. “A família branca é sempre bem-sucedida. Já a negra nunca é representada de maneira digna. Por trás disso, há uma ironia”, detalha. O jornalista acredita que a cor da pele é determinante na escolha de cargos políticos. “Gilberto Gil não é ministro da cultura porque é negro. É porque ele é mais conhecido que o Lula e o FHC (ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) juntos em qualquer parte do mundo”, opina.
Quando o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela veio ao Brasil, Walter o acompanhou. “Ele percebeu como o Brasil é mais racista que o país dele. Aqui, um negro é eliminado na primeira fase de uma seleção de emprego por ser negro. Se um negro entra numa loja, ele não é atendido da mesma forma que um branco”, argumenta.
Apesar de o sistema de cotas para negros já estar em vigor em algumas universidades e, com isso, a discussão racial ter conquistado mais espaço na sociedade, Walter acredita que o avanço ainda é pífio. “O Brasil é tão racista que quando um negro se coloca de maneira mais firme diante de alguma posição ele é logo acusado de cometer racismo ao contrário. Nós derramamos sangue e fizemos o trabalho pesado para construir o Brasil. Precisamos avançar”, afirma.
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