JORNAL: Agência Reuters
DATA: 06 de dezembro de 2006
EDITORIA: Site
PÁGINA: Site
MANCHETE: Cores que marcam
REPÓRTER: Dalia Acosta
Cores que marcam
A imagem de uma mulher branca que passeia por uma rua central de Havana de mãos dadas com um homem negro é cada dia mais comum em Cuba, mas as uniões inter-raciais ainda são mal vistas por uma sociedade que decretou o fim da desigualdade racial há quase meio século.
HAVANA – Alguns amores, simplesmente não são declarados nunca. Outros exigem muita coragem para se manter e enfrentar os estereótipos discriminatórios que marcam as diferenças nesta ilha do Caribe a partir da cor da pele e que estão presentes tanto na população branca quanto na negra ou na mestiça. “O tempo todo me sentia observada e criticada. As pessoas nos viam passar pela rua e ficavam nos seguindo com o olhar. Alguns amigos começaram a me tratar com frieza ou deixaram de sair comigo; a minha família passou dias sem falar comigo e fiquei sabendo de pessoas que comentaram que eu era uma suja”, conta Madelys Ríos, profissional de 38 anos.
Os preconceitos que ainda cercam o noivado, a união consensual ou o casamento entre homens e mulheres negros ou mestiços e brancos são considerados pelos especialistas como um dos indicadores que mostram com maior nitidez até que ponto persiste a discriminação racial em Cuba.
Amizade sim, família não
Um estudo realizado em meados dos anos noventa por especialistas do Departamento de Etnologia do Centro de Antropologia do Ministério de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, encontrou que apenas 55,2% das 116 pessoas pesquisadas em três bairros da Cidade de Havana consideravam “convenientes” as uniões inter-raciais.
Os casamentos inter-raciais foram reprovados por 68% das pessoas brancas pesquisadas, por 29,4% das mestiças e por 25% das negras. Como norma, todos defendem a amizade com pessoas de outra raça, mas não a formação de uma família.
Apesar de que o tamanho da amostragem não permite considerar os resultados obtidos como conclusivos em uma população de 11,2 milhões de habitantes, o estudo constitui uma referência obrigatória em um país onde a informação estatística é muito escassa e onde não é conhecido o número de uniões entre pessoas de raças diferentes.
“Há pessoas que acreditam que se uma mulher negra casa com um homem branco está melhorando a raça. Eu não gostaria de ver a minha neta com um branquinho. Nós somos negros e estamos orgulhosos disso. Temos a nossa cultura, os nossos santos, os nossos costumes”, disse Josefa Martínez, uma mãe-de-santo de 72 anos.
De acordo com o pesquisador Juan Antonio Alvarado, o racismo, durante o período colonial, foi a ideologia que sustentou o regime escravagista imposto pelos brancos de origem hispânica aos negros hispânicos e sua descendência.
“Sua manutenção após a abolição da escravatura e, posteriormente, na República neocolonialista, foi expressa por meio de um conjunto de idéias e práticas discriminatórias que garantiram a exploração e segregação racial dos setores não-brancos da população”, garante.
A persistência da discriminação
O fim da discriminação racial esteve entre os principais objetivos da Revolução Cubana, desde o seu triunfo, em 1959. Mas a eliminação do racismo institucionalizado e dos mecanismos jurídicos que impediam que a população negra ou mestiça desfrutasse dos direitos não significou a erradicação do racismo.
Isso também não aconteceu com a Constituição da República, vigente desde 1976. Segundo o artigo 41 da constituição, “a discriminação por motivo de raça, cor, sexo ou origem nacional está proscrita e é penalizada pela lei”.
“Pensava-se, ingenuamente, que, se fossem eliminadas as vias institucionais que favoreciam a prática da discriminação racial e a ênfase fosse posta na educação e na convivência cotidiana, automaticamente seria possível varrer as raízes do racismo e dos preconceitos raciais”, disse Jesús Guanche Pérez, autor de vários estudos sobre o tema.
Assim, desapareceram os lugares públicos vedados à população negra e mestiça (praias, cassinos, clubes, hotéis e outros), foi aberta a possibilidade de aceder livre e gratuitamente a todos os níveis de ensino, aos serviços de saúde, esportivos e culturais e a postos de trabalho e cargos de chefia.
Mas não foi revolucionada uma barreira “mais profunda e diversa” que se reproduz e multiplica horizontalmente e que inclui elementos da auto-estima pessoal e complexos psicológicos herdados e transmitidos que, de alguma maneira, condicionam a auto-imagem das pessoas sobre o “suposto pertencimento racial”, assegura Guanche.
Até hoje, a linguagem popular cubana inclui frases como “tinha que ser negro” ou “é tão bom que parece branco”.
A tendência a não reconhecer a persistência do racismo no âmbito social facilitou o aparecimento de manchetes como “A discriminação racial em Cuba não voltará jamais”, artigo publicado por José F. Carneado em 1962, ou “O problema racial em Cuba e sua solução definitiva”, texto de Pedro Serviat, publicado em 1986.
Acentuação da desigualdade
Segundo a investigadora María del Carmem Caño, “os nexos existentes entre o tema racial e sua repercussão no âmbito político ideológico” propiciaram que o problema fosse minimizado durante décadas. Após a crise econômica dos anos noventa, estima ela, a importância do fenômeno foi a extremos.
Uma contribuição importante para a análise da questão racial em Cuba foi a publicação pela revista Temas, em 1996, de um relatório especial sobre etnia e raça. Foram necessários nove anos antes de que aparecesse, em janeiro passado, um número especial da revista La Gaceta de Cuba sobre “Nação, raça e cultura”.
A publicação da União de Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC) reconheceu que, apesar dos esforços oficiais para erradicar a discriminação racial, a realidade tem demonstrado que ela está “enraizada a tal profundidade que não bastam procedimentos jurídicos ou políticos”, nem umas poucas décadas, para fazê-la desaparecer.
Na ilha caribenha “a questão racial é principalmente a do racismo antinegro, a discriminação e os preconceitos contra os não-brancos e a oposição a eles”, garante um ensaio do historiador Fernando Martínez Heredia, publicado no número especial de La Gaceta de Cuba.
Especialistas locais reconhecem, também, a existência de elementos de autodiscriminação entre a população negra e deformações na sua identidade sociocultural, que se reproduzem no processo de socialização das relações raciais na escola, na família e nos meios de comunicação de massa.
María del Carmem Caño considera entre essas deformações a aceitação passiva da crítica à sua cultura, “a deficiente autopercepção como grupo social e sua participação, consciente ou não, na reprodução de estereótipos raciais, ao intervir como propagador oral destes”.
De acordo com a pesquisadora, “a crise (iniciada em 1990) tem sido um fator de reprodução e agravamento das desigualdades sociais e, conseqüentemente, das raciais, devido aos nexos históricos que sempre existiram entre raça e classe”.
Em Cuba não existem dados disponíveis atualizados sobre a situação em que vive a população negra e mestiça cubana. De acordo com o Censo de População e Moradias de 1981, na ilha, viviam, nessa data, 6,4 milhões de pessoas brancas, 1,1 negras, 2,1 mestiças e umas 14.000 chinesas.
Mas a informação obtida durante a pesquisa nacional não foi totalmente fidedigna, segundo Guanche. A classificação como branco, negro ou mestiço dependia da apreciação do pesquisador quanto à cor da pele do entrevistado, sem levar em conta antecedentes familiares.
A base real do racismo em Cuba “não é epitelial” senão “muito mais profunda” e está associada à divisão da sociedade em classes, grupos e camadas, às relações de propriedade que condicionam a estrutura e a hierarquia familiar, à psicologia individual e social e ao desenvolvimento pleno das capacidades, estima Guanche.
A história de colonização do Brasil, o processo de escravidão e a segregação racial ainda existente nos dias de hoje afetam a auto-estima do negro brasileiro. O matemático, jornalista e formando em Direito Walter Brito, 52 anos, sabe que é exceção. Negro e nascido numa família pobre, no interior de Goiás, conseguiu superar o preconceito e outros desafios impostos pela vida. No livro recém-lançado Memórias de uma família negra brasileira, ele parte da história pessoal para defender a educação como a principal saída para vencer a discrepância determinada pela cor da pele. 













































